Acordar é um sonho coletivo

Acordar é um sonho coletivo

Cristiane Felipe, gestora de projetos sociais, compartilha a história que a levou a trabalhar no terceiro setor.

Recentemente, escrevendo um pequeno currículo para enviar à organização de um evento, me dei conta que tenho 13 anos de experiência profissional no Terceiro Setor.
Isso me fez refletir sobre os motivos que me levaram a seguir este caminho e uma história em particular, que me foi relatada por anos, deu sentido e razão às minhas escolhas.
Trata-se da história de uma mulher que se tornou mãe na adolescência e conta o seguinte sobre sua vida:

“Eu vim morar com meu marido no bairro Milionários em Belo Horizonte, quando eu ainda era adolescente e tinha engravidado da minha filha mais velha. Porém, eu era nova demais, entendia pouco da vida que se resumia em lavar, passar e cozinhar. Mais tarde, engravidei da minha filha do meio e, então, passei a ter mais trabalho, porque ela nasceu e ficou doente logo nos primeiros dias de vida e só melhorou após completar um ano. Essa fase foi muito difícil, pois passamos muitas dificuldades até meu marido conseguir um emprego estável.

Na época, quando minhas filhas tinham cinco e três anos eu queria colocá-las em uma escolinha, principalmente a mais velha, que já estava próxima de ir para a escola regular. Como nós não tínhamos condições financeiras de pagar uma escolinha particular, precisávamos de uma creche pública. Então, passando em frente a uma organização social chamada Lar Fabiano de Cristo – Casa de Almiro, resolvi me inscrever. Era muito concorrido, mas depois de um mês, foram até minha casa fazer uma sindicância e viram nossa necessidade. Naquela época morávamos em dois cômodos e estávamos construindo. Nossa casa foi erguida com meu suor e o do meu marido, pois fui ajudante de pedreiro dele em todas as etapas da construção. Eu acho que isso nos favoreceu para entrarmos na instituição, além da nossa renda ser baixa. Então, fomos inscritos.
Minhas filhas receberam uniformes e tênis, o que ajudou muito, pois elas não tinham roupas e sapatos para irem todos os dias. Também passaram a comer melhor, pois a alimentação de lá era impecável. Elas receberam atendimento médico e odontológico, coisa que na época elas só tinham em caso muito grave mesmo. Tinham muitas recreações, passeios, até no teatro elas foram. Estas coisas, a gente não podia fazer para elas. Elas tiveram acesso à cultura e ao conhecimento. Todas duas aprenderam a ler lá. E como o atendimento era para família, eu me beneficiei muito. Aprendi a costurar, fazer pintura em tecido, fazer cerâmica vitrificada e outros artesanatos. Mas, para mim, foi muito legal ter aprendido tocar violão, o que me serviu de entretenimento. Passava horas nos finais de semana tocando violão para as meninas. Sem contar que tinha dias que eu ia levar as duas às 8h da manhã e só voltava às 4h da tarde com elas. Eu ficava por lá o dia todo. Almoçava, participava do grupo de geração de renda, fazia os cursos e participava de reuniões, que eu adorava. Aprendi um monte de coisa nestas reuniões. Tenho guardado até hoje uns papéis de uma dinâmica que participei lá.
As meninas começaram a se socializar. Antes elas não tinham muitos coleguinhas, pois eu não deixava brincarem na rua. O Ensino Fundamental das duas foi brilhante, com notas ótimas, e elas não tiveram nenhuma dificuldade de adaptação e socialização.
Para mim, foi essencial para o meu despertar. O Lar Fabiano me acordou para a vida. Abriu minha mente. Comecei a me sentir capaz. Passei a querer fazer as coisas e quis até voltar a estudar. Comecei a sonhar e a pensar por mim. As dinâmicas das reuniões de grupo fizeram as pessoas me ver, pois elas queriam que eu ficasse no grupo delas e eu me sentia importante. Nunca faltei a nada lá no período em que fui assistida. Estas coisas foram importantes para que eu saísse de casa e fosse trabalhar fora.”

      1“Acredito no Terceiro Setor e sou resultado vivo dele.”

 

 

 

 

 

 

Ozana no jardim da Instituição que foi atendida.

 

Um dia perguntei a esta mulher qual a importância dos projetos sociais na promoção das pessoas, e ela respondeu:

“Importantíssimos. Estes projetos é que dão oportunidades às pessoas. Graças aos projetos, eu tive oportunidades. Tudo isso me levou a valorizar o conhecimento e passei a incentivar meus filhos a estudarem e a buscarem conhecimento e informação. Todos terminaram o Ensino Médio, a mais velha fez Contabilidade, a do meio é pós-graduada em Projetos Sociais; o mais novo está na etapa final do curso de Engenharia Mecânica. Eu concluí o Ensino Médio e estou estudando para concursos públicos. Tudo que eu sei sobre projetos sociais eu procuro divulgar e passar para frente, pois foi o que me ajudou. Às vezes, as pessoas têm talento e precisam de oportunidades. O fato de a minha filha mais nova trabalhar com Projetos Sociais me deixa muito feliz. Minha família foi muito beneficiada, por isso não tenho dúvida de que somos um caso de sucesso da promoção da família.”

Nestes 13 anos de experiência conheci muitas historias semelhantes a esta, porém, costumo dizer que não é por acaso, não foi por acaso e não esta sendo por acaso que esta mulher seja minha mãe e que esta é a história da minha vida. O caminho profissional que trilhei é por acreditar no terceiro setor e ser resultado vivo dele. Atualmente, trabalhando como gestora de projetos sociais de assistência social e na garantia de direitos, nos momentos de exaustão do desafio árduo de manter uma instituição filantrópica funcionando, me fortaleço e busco forças na minha própria história e alimento o desejo de ver outras pessoas, assim como minha mãe, “acordarem” para a vida.


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