O canto é redentor

De menino pobre do interior de Minas para os palcos do mundo, Rodrigo Jerônimo conta sua trajetória de arte e vida.

Rodrigo Jerônimo é artista e completou em 2015 dez anos de profissão. Ele já esteve em diferentes cidades do Brasil em turnê com oito espetáculos que montou, cantou na Alemanha, está se preparando para lançar um documentário e o seu primeiro disco está no prelo.
Ele é coordenador do Grupo das Dez que se dedica a pesquisas de teatro musical. Em 2015, dirigiu ao lado de João das Neves, o Oficinão do Grupo Galpão. Juntamente com a irmã Bia Nogueira e Marcos Fábio de Faria, Jerônimo assina a dramaturgia do musical Madame Satã, terceiro espetáculo do grupo fundado em 2008.
Além dos palcos, Rodrigo Jerônimo possui a Emoriô Produções, empresa criada para representar seus trabalhos artísticos e também de artistas parceiros.
É Rodrigo quem escreve sua história para realizar tais sonhos, um caminho que não foi nada fácil. Confira!

Tenho 32 anos, nasci em Belo Horizonte e me criei em Matozinhos/MG. Sou filho de um carteiro e uma cabeleireira. Minha infância foi como a maioria das crianças pobres e negras desse país na década de 1980. Lembro-me de estocar comida, com receio que no outro dia tudo aumentasse de preço, me lembro de meu pai dizendo que o país estava mais uma vez em crise e que tempos sombrios viriam. Mesmo assim, meu pai não deixou de cantar no coral da cidade e nem de tocar tuba na banda sinfônica.

“Passei por várias dificuldades, mas ela, a arte, estava sempre lá para me apartar e me apoiar.”

Aos nove anos ingressei, por pressão do meu pai, na Corporação Musical Sagrado Coração de Jesus, de Matozinhos, mesma banda sinfônica que ele fazia parte. Meu pai não poderia imaginar que esse “castigo” iria mudar definitivamente a vida de dois dos seus três filhos.
Cresci ouvindo clássicos da música caipira entoados por minha mãe. Foi aí que aprendi como o canto é redentor. Passávamos os dias ouvindo a voz afinadíssima e os assovios de “Tango para Tereza” e “A majestade o Sabiá”. Minha mãe foi minha grande inspiração!
Desde meu primeiro contato com os estudos musicais, percebi que algo ali era transformador. Fazia questão de todos os domingos bem cedo, empunhar meu trompete, que carregava com dificuldade, tendo em vista o tamanho do instrumento para uma criança um pouco mirrada! Histórias como a minha são comuns a muitos artistas mineiros que possuem formação musical pautada em bandas sinfônicas. Fui uma criança negra, homossexual, que encontrou na militância política um meio formador de posicionamentos.
Saí de Matozinhos em 2005. Lá se vão dez anos. Coloquei uma mochila nas costas e fui para tentar a vida na cidade grande. Aos poucos fui conhecendo Belo Horizonte e as pessoas que moram aqui. Passei por todos os tipos de empregos, de caixa de supermercado, barman, a mais tarde já aluno da UFMG, vendedor de brigadeiros. Sempre estudei na Universidade como bolsista, mas aquele processo não me preenchia. Foi então que algo extraordinário modificou para sempre minha existência.
Conheci a Associação Campo das Vertentes, que estava promovendo cursos com a cantora Titane, de quem sou grande fã, o Diretor de Teatro João das Neves e a bailarina Irene Ziviani. Nessa época, viver de arte era algo que eu não imaginava como possibilidade. O curso aconteceu no Centro Cultural Parque Lagoa do Nado e foi um importante catalizador na carreira de vários jovens artistas em formação, inclusive na minha! Pelo menos dois grupos foram criados daí: o Rosa dos Ventos e o Grupo dos Dez.
“Na arte não ficam os mais talentosos e sim os mais persistentes” com essa frase de João das Neves, segui durante anos tentando, e até hoje tento, fazer do meu ofício algo que me dê dignidade e felicidade. Nesse percurso passei por várias dificuldades, mas ela, a arte, estava sempre lá para me apartar e me apoiar. O Teatro é uma das artes mais generosas, além de acolher, sempre está ali para te abrigar e para colocar a comida na mesa. É com ele que vislumbro grandes possibilidades em minha vida.
O que me interessa dizer, depois dessa nada breve biografia, é que a arte é reparadora. As instituições que promovem a formação social das pessoas por meio da arte devem ser ovacionadas. É preciso se atentar para o poder transformador do pensar artístico, para que quem sabe, salvemos esse país das mazelas que imperam em nosso dia a dia.


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