Eterna Aprendiz

A luta, os sonhos e as conquistas de uma mulher que vive com HIV

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Eu sou Heliana Moura, tenho 46 anos, sou natural de Belo Horizonte/MG, onde cresci e vivi quase todo esse tempo. Sempre fui sonhadora, tanto dormindo, quanto acordada. Minhas escolhas são algumas vezes acertadas noutras não, mas sempre assumi as consequências de todas elas. O que sempre busquei foi ter uma vida digna, junto a pessoas que amo e me amem.

Numa dessas escolhas, há 19 anos, decidi abrir mão do preservativo numa relação fixa. Pelo menos, eu acreditei que era. Como consequência, fui infectada com o vírus do HIV. Foi difícil… Diria que no início é praticamente uma sentença de morte, pois é o que foi passado durante muito tempo: AIDS MATA!

‘Minha vida acabou’, essa era minha a sensação e o sentimento de todos que ficaram ao meu lado. No processo de aceitação dessa nova condição em minha vida, o apoio da minha família foi fundamental. Amigos de verdade continuaram e continuam ao meu lado.

Outros me julgaram. Naquele momento não sei o que era pior, ter HIV ou ser rotulada como promíscua. Os curiosos queriam me ver, pois a notícia se espalhou muito rápido. Como eu estava bem, as pessoas se sentiam decepcionadas, pois esperavam me ver doente.

Decidi me mudar de BH e morar em Brasília, onde eu iniciei meu tratamento. Aos poucos fui conhecendo o que é viver com HIV e ter que conviver com a discriminação e o preconceito. Também devagar veio a aceitação e a minha escolha de ser forte para dar conta de tudo que viria pela frente. Tive relacionamentos com pessoas que me ajudaram nesse processo. Um desses relacionamentos foi com uma pessoa que me aceitou e não teve preconceito de se relacionar comigo. Mesmo ele não tendo o vírus, tivemos um filho. Sou mãe de uma moça que tive antes do HIV e de um rapaz depois do HIV. Os dois são muito importantes em minha vida.

Meu filho nasceu sem o vírus e o pai dele não se infectou. Isso deixa claro que nós, mulheres vivendo com HIV, podemos sim ter filhos sem o vírus, desde que tenhamos o correto acompanhamento médico.

“Sabemos que o estigma que envolve a AIDS persiste por ser uma doença ligada ao sexo”

Aos poucos fui me reinventando, me fortalecendo e ocupando meus espaços. Iniciei uma caminhada no movimento social, que me despertou, inclusive, o protagonismo. Hoje

represento politicamente o Movimento Nacional das Cidadãs PositHIVas em vários espaços locais, nacionais e até internacionais. Esse movimento é constituído por mulheres de todo o Brasil que vivem com HIV. Eu tenho a responsabilidade de falar por todas nós, levando nossas demandas, contribuindo na construção de políticas públicas que contemplem nossas necessidades e exigindo a implementação das que já existem.

De volta a BH, fiz minha graduação em Serviço Social e uma especialização em Direitos Humanos. Hoje, atuo no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) da Prefeitura. Trabalho como aconselhadora na testagem para o HIV/sífilis e hepatites virais e com capacitações para profissionais da Atenção Básica sobre aconselhamento de maneira humanizada e sem julgamento de valores.

Embora tenhamos percorrido mais de 30 anos de muitos avanços e conquistas desde o descobrimento do vírus, sabemos que o estigma que envolve a AIDS ainda persiste, por ser uma doença ligada ao sexo.

Hoje me sinto realizada em vários setores de minha vida, mas sei que muito ainda tenho que fazer. Continuo sonhando, dormindo e acordada. Mais que nunca, sei que para os meus sonhos se concretizarem, basta minha vontade e perseverança.

Continuo errando e acertando nas escolhas, porém hoje sou muito mais forte. Por isso, não devemos desistir de nada em nossas vidas. Se algo que almejamos se faz difícil e muitas vezes parece impossível, vale lembrar que, se for pro nosso bem, de alguma forma alcançaremos. Temos que investir em nossos sonhos, em nossas buscas, em nossos ideais.

Se hoje sou diferente de antes de me infectar pelo HIV? Ah sim, com certeza. Hoje sou mais feliz com pequenas coisas, vivo cada dia como se fosse único e procuro fazer tudo da melhor forma e sempre dar o melhor de mim. Quanto ao preconceito, vamos tentando combater no dia a dia, mostrando que não sou diferente e de alguma forma procuro fazer a diferença.

Essa sou eu, uma mulher que vive com HIV, com amores, desamores, conquistas, desilusões, perdas, ganhos e muito mais. Numa certeza de ser uma eterna aprendiz.

“Mais que nunca, sei que para os meus sonhos se concretizarem, basta minha vontade e perseverança”


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