Economia Solidária ajuda mulheres vítimas de violência

De vítima da violência doméstica a empreendedora: conheça um pouco da história de Xica da Silva

“Eu lia oito, dez livros por mês. Eu amo ler. Eu podia ser doutora com certificado, mas não consigo mais ler um livro. Poderia estar em outro patamar”. O relato é da Francisca Maria da Silva, conhecida como Xica da Silva. Durante 10 anos, ela sofreu violência doméstica do próprio companheiro, com quem ficou por 15 anos. A dificuldade na leitura se deve a uma das últimas agressões, quando ela perdeu a visão do olho direito.

“Denuncie. Não deixe acontecer pela segunda vez. Não faça como eu fiz. Não espere perder um olho, um braço, para denunciar”, Xica da Silva faz um apelo. Depois de anos de agressões constantes, ela deu um basta quando o ex-companheiro tentou jogar o carro na Lagoa da Pampulha, com a família dentro, em janeiro de 2001. Além de perder um olho, Xica levou 88 pontos no rosto. A filha mais velha levou 14 pontos no rosto, a do meio 36 e a caçula não sofreu nenhum arranhão.

O começo da superação foi quando ela olhou para as três filhas. “Eu não tinha emprego, não tinha nada dentro de casa. Eu vi que tinha que cuidar das minhas filhas, tinha que viver por elas e sem o agressor”, diz.
Francisca denunciou. Procurou a Coordenadoria Municipal dos Direitos da Mulher – COMDIM para reerguer a própria vida. “Nós montamos um grupo de convivência para as mulheres que passaram pelo abrigo, para ver como a gente podia se ajudar. Vimos o que cada uma sabia fazer. E fizemos produtos para vender em uma feira de Belo Horizonte. A gente podia ficar com nossos filhos, fazer nossos produtos, vender e ter uma renda para sustentar a família”, explica.

“A mulher tem que entender que violência doméstica não é um tapa na cara. Pode começar com a violência psicológica. A lei Maria da Penha está aí”, ressalta. Xica da Silva fala que é difícil sair do quadro de violência doméstica sozinha, pois é preciso de ajuda jurídica, apoio psicológico, além da ajuda de amigos, conhecidos e familiares. Conta que ganhava produtos de feira, de mercearia que não eram bons de venda. “Comecei a fazer conserva, aproveitando os alimentos, prestando atenção nos valores nutricionais. A partir daí, comecei minha superação. Ainda faltam pontos para trabalhar para falar que estou 100% curada dessas marcas de angústias, mas eu sou uma mulher feliz”, relata.

O trabalho de Francisca começou a ser reconhecido e a COMDIM a chamava para palestras, rodas de conversas. A história dela encorajou outras mulheres que procuraram a coordenadoria e o movimento de economia solidária foi crescendo. Nesta mesma época, ela fundou o buffet “Trem Bão” que hoje se chama “Amigos da Xica” e conta com 22 pessoas trabalhando, sendo 16 mulheres.

A economia solidária é a saída para o mercado formal que não absorve mão de obra existente. Assim como Xica, 75% das pessoas do movimento são mulheres, negras, com idade acima de 45 anos e ensino fundamental incompleto. Para ela, economia solidária é o agrupamento de pessoas para gerar trabalho e renda, sem patrão e empregado, trabalhando na cooperação, na solidariedade.

Diante do reconhecimento, Xica da Silva se tornou coordenadora, nível nacional, do Movimento de Economia Solidária e do movimento na região macro sudeste (composta por 94 municípios). Além disso, é da gerência de segurança alimentar da prefeitura de Ribeirão das Neves. Xica da Silva pode não ser doutora com diploma, mas é referência no que faz. E ela deixa um recado: diante de qualquer tipo de violência, procure a rede de proteção á mulher. “É possível vencer a violência e dar um novo sentido à vida”, finaliza.


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