Ecomuseu do Cipó

Um museu que é um movimento em prol do desenvolvimento comunitário

Ecomuseu é um movimento da museologia que possui preocupações de ordem científica, cultural, social e econômica, e visa promover a participação ativa das comunidades, tanto no planejamento e na gestão patrimonial, como na operação turística. “Vivenciamos a era da informação, da propaganda, do marketing, do consumo exarcebado”, comenta Sílvia Lima, presidente da ONG Baí e uma das coordenadoras do Ecomuseu do Cipó. Ela cita o estudioso Federico Mayor: “o mundo hoje vive, permanentemente, administrando tensões, entre o global e o local; entre coisas em longo e em curto prazo; entre o conhecimento e a capacidade de assimilação; entre o material e o espiritual”.

“o patrimônio vivenciado no cotidiano pela comunidade, com os seus saberes, relações de afeto, de poder e de luta”

A Serra do Cipó é uma região na parte sul da Serra do Espinhaço, no divisor de águas das bacias hidrográficas dos rios São Francisco e Doce, em Minas Gerais. A diversidade da flora e da fauna já impressionava os naturalistas europeus no século XIX e certamente as populações que em suas grutas e cavernas se abrigaram há mais de 12 mil anos. Um lugar rico em belezas naturais, história, manifestações culturais e muito próximo da capital, apenas 90km e ainda mais próximo do Aeroporto Internacional: 70km. A Serra do Cipó faz parte da Estrada Real e do Circuito do Diamante e é um dos principais destinos turísticos do estado.
A região vive um período de crescimento urbano e populacional, com fluxo cada vez maior de visitantes. “Observa-se na Serra do Cipó hoje um conflito de situações: de um lado, a presença da população local, que ainda guarda vestígios de uma vida rural rica culturalmente com sabedorias e tradições seculares, e de outro a chegada da população urbana, com a ocupação desordenada e impactante”, descreve Sílvia e rapidamente mostra como é possível que esse turismo seja transformado em algo positivo: “Com o Ecomuseu, surge a possibilidade da preservação dinâmica e criativa, um museu comunitário, com a participação de diferentes representantes locais, trabalhando com o conceito de ‘cultura viva’, ou seja, o patrimônio vivenciado no cotidiano pela comunidade, com os seus saberes, relações de afeto, de poder e de luta”.
Os coordenadores do projeto, realizado pela ONG Baí desde 2011, Sílvia Lima, Marcelo Marques e Maria Stela Ferreira contam que o trabalho incentiva a integração da comunidade por meio de ações de cidadania, valorizando a cultura, a economia local, o ambiente, a educação e o bem-estar de todos na região. “Quando estimulamos a população a reconhecer a sua identidade, promovemos uma melhora na qualidade das relações entre moradores e turistas, para que sejam mais equilibradas e justas e, sobretudo, assegurem a preservação de modos de vida tradicionais”, conclui a equipe de coordenadores.

Como Funciona

Na prática, o Ecomuseu do Cipó desenvolve programas de preservação e recuperação dos patrimônios naturais, históricos e culturais da Serra do Cipó. São projetos com o objetivo de promover a emancipação, a sustentabilidade e a qualidade de vida dos indivíduos e comunidades envolvidas, geridos de forma participativa e com foco na valorização da memória coletiva.
“Para que as ações aconteçam de forma integradora, temos na comunidade a principal parceira”, ressalta Sílvia e completa: “a sobrevivência do projeto se dá principalmente por meio de incentivos fiscais para cultura e educação. Nosso país tem importantes leis de incentivo (Lei Rouanet, Fundo Nacional, Fundos de Direitos Difusos, LEIC-MG, entre outros), ainda pouco divulgadas. É claro que precisam de reformas e melhorias, mas, com certeza, é por meio delas que nosso projeto consegue alcançar voos maiores e engendrar novas formas de pensar, agir e educar”.
Para viabilizar o projeto, a ONG Baí conta com o apoio de instituições públicas, privadas e sociais, de educação, cultura e meio ambiente, tais como: Superintendência de Museus e Artes Visuais de Minas Gerais – Sumav/MG; Prefeitura Municipal de Jaboticatubas; Prefeitura Municipal de Santana do Riacho; Conselho de Patrimônio de Jaboticatubas; Subcomitê da Bacia Hidrográfica do Rio Cipó – SCBH Rio das Velhas; Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico – Iepha/MG; Faculdade de Museologia da UFMG; Faculdade de Museologia da UFOP; Promotoria Estadual de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico/MG; Empresa Austen Processos Metalúrgicos; Petrobras; Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários – ABREMC; Associação Imagem Comunitária; Sebrae-MG; Conselho da Fazenda do Cipó; Colégio Pitágoras; Instituto Educacional Neusa Rocha e Parque Nacional da Serra do Cipó.
Sílvia explica que cada um deles tem uma participação diferente, que vai desde patrocínio via lei de incentivo à promoção e divulgação das atividades do Ecomuseu. “A nossa missão é pensar os problemas da região e suas comunidades de forma coletiva e naturalmente temos que buscar a participação dos três setores: público, privado e sociedade civil, no dia a dia das ações, mantendo aberto o diálogo”, reforça a coordenadora.
Jaboticatubas tem 65% da área do município ocupada pelo Parque Nacional da Serra do Cipó e ainda, duas comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares: Mato do Tição e do Açude, e fortes tradições culturais, religiosas e folclóricas. Gilda C. Moreira, Secretária Municipal de Cultura, Esporte e Turismo de Jaboticatubas considera muito importante para o município a presença do Ecomuseu do Cipó. “Trabalhando juntos podemos contribuir mais para a realização de ações que visem valorizar e conscientizar a população sobre a importância de todo o contexto histórico e ambiental que estão inseridos”, elogia Gilda e lista como benefícios da parceria: maior divulgação e valorização da cultura e história local; trabalho de conscientização e preservação do patrimônio natural do município e realização de eventos com ênfase nas manifestações culturais locais, entre outros.

Resultados
Antes de falar dos resultados do trabalho até aqui, Sílvia cita Paulo Freire: “A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.” Os coordenadores são unânimes em dizer que o Ecomuseu do Cipó não só promove um importante encontro entre as manifestações culturais, como foca em suas ações, a cidadania e a promoção de valores e costumes, fatores decisivos na promoção dos direitos humanos e na construção da história social e cultural da comunidade da Serra do Cipó.
As boas práticas incentivadas são diversas, como: o intercâmbio entre diferentes gerações; o conhecimento de tradições seculares; a promoção humana por meio da autoestima e da valorização de culturas e sabedorias populares; a união entre poder público, empresários e comunidade; a visibilidade da região em meios de comunicação; o processo de revitalização de um bem tombado do século XVIII; a promoção de debates e discussões sobre qualidade de vida, cultura e cidadania e o movimento na economia local com o incremento da renda de moradores.
“O Ecomuseu mostra que quando uma ideia é verdadeira e necessária, ela por si acaba movimentando pessoas e instituições. Essa é sem dúvida a maior conquista: o fortalecimento das pessoas, provando que o acesso à história, informação e identidade cultural é o maior bem que podemos ter”, afirmam os coordenadores. Sílvia finaliza: “Como dizia o poeta Fernando Pessoa, ‘é mais livre e maior o rio da minha aldeia’”.

PROJETOS ECOMUSEU DO CIPÓ

•Fazenda do Cipó
Sede do Ecomuseu do Cipó, a Fazenda do Cipó é um conjunto arquitetônico do século XVIII, frequentado pelos moradores da região para a celebração de missas, tradições e comemorações. É onde acontece a maior parte das ações culturais, educacionais e patrimoniais desenvolvidas pelo Ecomuseu, fortalecendo a Fazenda como um importante local para as doze comunidades quilombolas e rurais que vivem em seu entorno.
O Conselho da Fazenda do Cipó, criado e mantido com o apoio do Ecomuseu, reúne proprietários da região, representantes das comunidades e de associações para pensar e desenvolver projetos no local.

•Espaço Cultural Nhá Rita
Criado em 2005, na antiga senzala da Fazenda, o Espaço Cultural Nhá Rita guarda a memória local e a história relacionada à origem das comunidades da região.

•MÚSICA NA SERRA
Uma história narrada em forma de música criada a partir das memórias de canções antigas dos moradores mais velhos, do presente versado pelos jovens e o futuro inventado pelas crianças. Assim, o projeto Música na Serra possibilitou o diálogo entre gerações e uma reflexão coletiva sobre o ontem, o hoje e o amanhã. Em 2013, foi lançado o primeiro álbum do projeto, composto e gravado na Serra do Cipó.
O projeto foi um dos 36 aprovados na Seleção Pública Petrobras Cultural – edição Minas Gerais para ampliar o número de alunos e instrumentos oferecidos, democratizando o acesso à música e promovendo a aptidão de novos talentos.

•INVENTÁRIO COMUNITÁRIO
A etapa de continuação do projeto Música na Serra irá realizar, no segundo semestre de 2015, a produção coletiva do Inventário Comunitário, um registro audiovisual das histórias orais contadas pelas personalidades locais. O registro incentiva o papel protagonista das comunidades, recupera tradições e informações históricas das populações e suas origens.
Ao final, será produzido um documento do capital social da Serra do Cipó, quantificando elementos do patrimônio da comunidade, reforçando a consciência e o orgulho da identidade cultural de seus habitantes.

•VISITAS GUIADAS
O Ecomuseu do Cipó oferece visitas guiadas em que são apresentadas manifestações do Patrimônio Histórico e Natural da região.
Como patrimônio imaterial, os visitantes conhecem serestas e canções populares, conversam com nativos, experimentam receitas e alimentos locais, acompanham o dia a dia de uma comunidade quilombola, jogam e brincam no terreiro e estudam modos de fazer antigos. Os ambientes onde tais manifestações acontecem é formado por senzalas, casas coloniais, rancho de bandeirantes, moinhos, fábrica de sabão de coquinho macaúba, capelas e venda do século XVIII, objetos e documentos históricos, o Mosteiro de São José, cinema ao ar livre com filmes da região e hospedagem colonial. A natureza em torno é ainda mais rica e convida para trilhas a pé ou de bicicleta no Cerrado, banhos no Rio Cipó e suas cachoeiras, passeio de caiaque ou canoa no Rio, apreciação de plantas e bichos do Cipó, ou uma noite astronômica longe das luzes da cidade.

•Cipó Fazenda Café
Pães, bolos, roscas, biscoitos caseiros, feito pelas mãos dos moradores da região, geleias de frutas do Cerrado, servidos em uma casa colonial, com a presença de personalidades locais para um dedo de prosa.
A receita obtida com atividades como as visitas guiadas e o Café contribuem para a sobrevivência do projeto e também para o desenvolvimento econômico da comunidade.


2 Responses to Ecomuseu do Cipó

  1. Marcia says:

    Parabéns!!! Vocês são maravilhosos, adorei conhecer a Serra do Cipó. O projeto é maravilhoso e sobretudo necessário num país de aculturação constante. Saudades e muito orgulho de vocês! Beijos!

  2. Mª da Conceição says:

    Como fazer as visitas guiadas, tem uma programação de datas? tem alguem que organiza? Gostaria dos contatos

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