Capta

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Tereza da Gama Guimarães Paes, diretora-presidente da Fundação Benjamim Guimarães / Hospital da Baleia

Fundação Benjamin Guimarães, mantenedora do Hospital da Baleia, foi criada por meu bisavô, Benjamin Ferreira Guimarães, há 71 anos. Ele era um homem visionário e um grande empreendedor social, na época em que nem conhecíamos o termo. Além do Baleia, ele fundou santas casas, orfanatos e escolas.

Eu iniciei meu trabalho no Baleia no Setor de Psicologia, em 1991. Durante o período de oito anos, pude me familiarizar com a rotina do hospital e conhecer suas dificuldades e potencialidades. Foi uma época de grandes desafios e aprendizados. Em 1999, passei a atuar na diretoria financeira e, desde 2001, estou como diretora-presidente.

O Hospital da Baleia é uma das maiores instituições filantrópicas de Minas Gerais, com boa parte do seu atendimento voltado para o SUS. Além de ser credenciado pelos Ministérios da Saúde e Educação como hospital de ensino, o Baleia é um hospital geral, com 23 especialidades médicas e atendimento adulto e pediátrico. Fazemos cerca de 500 mil procedimentos/ano e somos referência estadual em Oncologia, Pediatria, Nefrologia, Dermatologia, Ortopedia, Neurocirurgia e tratamento de fissuras labiopalatais e deformidades craniofaciais.

Captação de Recursos

O setor Captação de Recursos do Hospital engloba as áreas de Comunicação Social, Marketing, Relações Institucionais, Ouvidoria e a Rede de Amigos, responsável pelo voluntariado e doações em geral. Temos programas voltados para pequenas e grandes empresas e para pessoas físicas.

Temos o Adote um Leito, um programa em que empresas aportam valores referentes ao custo de manutenção mensal de um leito. Este programa é dividido nas categorias ouro, prata e bronze, e as doações correspondem, respectivamente, a 100%, 50% e 35% da manutenção. E cada categoria tem retornos de visibilidade diferentes.

Temos ainda o Programa de Atenção Oncológica (PRONON) e o Fundo da Infância e Adolescência (FIA) que oferecem às empresas a possibilidade de financiamento por dedução fiscal. Atualmente, temos grandes parceiros via FIA e PRONON, como Ambev, Bradesco, Itaú, Gerdau, Banco BMG, Banco Bonsucesso, entre outros. Para o PRONON este ano, temos um grande desafio porque inscrevemos projetos de valores altos que possibilitarão ampliar e aprimorar a assistência atualmente prestada e teremos que nos esmerar, ainda mais, na captação.      

Outra parceria relevante é com a Drogaria Araujo, grande rede de farmácias de Belo Horizonte e Região Metropolitana. É uma campanha muito simples e bem efetiva. Ao pagar a conta, as pessoas têm a opção de doar o troco para o Baleia. Em 10 anos de campanha, já arrecadamos 10 milhões de reais.

Outra importante fonte de captação, e que já foi até premiada, é a Rede de Voluntariado Digital, um sistema de financiamento coletivo (crowdfunding) em que pessoas doam qualquer quantia pela internet. Geralmente, lançamos campanhas direcionadas para aquisição de aparelhos e produtos que promovam a melhoria do tratamento dos pacientes, como aparelhos de ar condicionado, poltronas reclináveis, equipamentos para o Serviço de Nutrição e Dietética, etc. São campanhas rápidas e muito eficazes. Depois de arrecadado o valor da campanha que colocamos no ar, compramos os materiais e fazemos a devida prestação de contas aos doadores. Prezamos pela transparência.

Também captamos doações por telemarketing, uma importante fonte de receita. Há a possibilidade de doação via conta corrente da instituição, boleto bancário e doações de produtos, como alimentos, fraldas, medicamentos, etc. Ainda participamos de eventos para expormos nossa marca e arrecadarmos doações.

Há 14 anos promovemos anualmente um grande evento: o Jantar dos Amigos do Baleia, que reúne pessoas de expressiva representação dos meios empresarial, cultural e social de Minas Gerais. Também vendemos produtos solidários assinados por estilistas e artistas. São agendas, canecas, camisas, canetas e outros.

Recebemos recursos provenientes de emendas parlamentares, quando deputados destinam verba para as instituições de saúde, seja para equipamentos, obras ou custeio. Eles enviam os recursos, firmamos um convênio público e executamos os projetos propostos. O processo termina com a prestação de contas, que é auditada pelos órgãos públicos.   

Nossas ações são planejadas levando em conta o porte dos parceiros (pequenas e grandes empresas), pessoas físicas e suas expectativas ao aliar suas marcas à nossa. Todos os projetos têm algum tipo de retorno de visibilidade. Temos muito cuidado na escolha desses parceiros, porque sempre buscamos empresas e pessoas que compartilham conosco valores de credibilidade, ética e solidariedade.

“O setor privado procura no Terceiro Setor um maior nível de profissionalização em seus processos. Quem investe nisso sai na frente, com certeza.

Dicas

Primeiro é necessário aliar os projetos de captação ao Planejamento Estratégico da organização. Não se faz projetos que não estejam atrelados ao planejamento. Isso é necessário porque precisamos pensar, simultaneamente, no bem estar do paciente, na melhoria das condições da infraestrutura e na saúde financeira.

Para termos sucesso nas captações é fundamental que tenhamos um bom nível de governança corporativa, isso é fundamental para a credibilidade dos projetos e da própria instituição. Estamos investindo nisso, com fomento de equipe e revisão de processos. 

Nossos retornos são baseados na associação da marca do parceiro com a do Hospital da Baleia e na transparência da prestação de contas. Publicamos a parceira nas nossas redes sociais, trazemos os executivos para acompanhar a execução dos projetos, enviamos relatórios periódicos e entregamos selos de Empresa Amiga do Baleia, para que as organizações possam usar como marketing social.

As empresas que aportam recursos para o Baleia nos procuram porque sabem da qualidade da assistência que prestamos, da nossa idoneidade, sabem que os recursos serão aplicados de forma diligente e que faremos prestação de contas. O setor privado procura no Terceiro Setor um maior nível de profissionalização em seus processos. Quem investe nisso sai na frente, com certeza. 

Apesar da crise

Este ano, particularmente, a dificuldade está na situação econômica e financeira em que o país se encontra. As empresas diminuíram consideravelmente seu budget para patrocínios de projetos, principalmente, aqueles sem dedução fiscal. Também faltam mais incentivos para que as empresas invistam na área da Saúde. Existem programas voltados para Esporte, Cultura e Lazer, mas poucos exclusivos para hospitais.

Até os recursos públicos diminuíram. As emendas parlamentares, que são os recursos que deputados estaduais e federais destinam para a Saúde, sofreram cortes. É necessário mais conscientização das pessoas em relação à atuação das filantrópicas no país. Financiamos boa parte da saúde pública no Brasil e a sociedade, na sua maioria, não sabe disso. 

O que pleiteamos, na verdade, é que a saúde pública seja prioridade para os governantes. É necessário mais investimentos para a área, e urgentemente. A maioria das filantrópicas está muito endividada e isso se deve ao subfinanciamento dos serviços de saúde. Os custos dos procedimentos têm, em média, uma defasagem de 30% em relação aos valores pagos pelo governo. Se continuar assim, muitas instituições poderão não sobreviver e a saúde pública corre risco de entrar em colapso.

Temos grandes anseios e estamos numa fase de saneamento financeiro para, em seguida, fazermos novos investimentos.

Criamos unidades de negócio para podermos focar nossas ações em projetos que nos tragam sustentabilidade financeira, sem prejudicar a assistência. Esse é nosso atual desafio. Também estamos investindo na captação de recursos de pessoas físicas e jurídicas para diminuirmos nossa dependência do poder público.   

Apesar da crise, estamos otimistas e estamos nos reinventando e criando outras fontes de captação. Em breve, teremos novidades.


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