Articulação Campeã

Quando o Instituto Trilhar chegou ao campo Santa Rosa, em Sete Lagoas, em 2014, para começar o projeto Base Campeã, com 60 crianças, achou que não fosse conseguir. “O lugar era ocupado pelo tráfico de drogas. O campo e a quadra eram vazios e escuros, faltava cuidados e tudo que existia era um bar mal frequentado”, comentou Érica Moraes, uma das fundadoras do Instituto Trilhar e ex-atleta da seleção brasileira de judô.

Não que a trajetória até ali tivesse sido fácil. A organização social nasceu em 2013, quando três amigos, que eram colegas de trabalho no governo de Minas Gerais, deixaram seus cargos para se dedicarem ao terceiro setor. Eduardo Guimarães, Daniel Castelão e Érica tiveram o projeto Base Campeã aprovado no primeiro edital da Lei Minas Olímpica, o mecanismo estadual de incentivo fiscal ao esporte. Iniciantes que eram, Érica lembra-se que não foi simples encontrar um parceiro no segundo setor.

Conseguiram contato com a empresa Cimento Nacional que buscava um projeto de futebol para contribuir. Eduardo, que é de Sete Lagoas, sugeriu tentarem o campo do bairro Santa Rosa, que é um local de interesse da empresa para investir. Conseguiram, então, com a Secretaria Municipal de Esportes, o termo de cessão do espaço público para realizarem suas ações. “Fomos articulando todos, ligando todos os lados”, contou Érica.

A estratégia de buscar conexões também foi usada com a comunidade, para juntos resolverem o problema com o tráfico de drogas. “Um dos nossos treinadores, o Palhinha, mora ali no entorno e ele nos ajudou a mediar a situação”, disse a judoca. Hoje, dois anos depois, o projeto Base Campeã atende 300 crianças, adolescentes e jovens, estudantes de 22 escolas públicas da cidade.

Tem ainda o recente time de futsal feminino, formado pelas mães dos atletas, a pedido delas, pois além de acompanharem os treinos dos filhos e cozinharem o arroz temperado que alimenta os jogadores nas competições, agora elas querem jogar bola.

No futebol de campo, o projeto oferece treino para quatro categorias competitivas: sub13, sub14, sub15 e sub17, que competem o mineiro e outros campeonatos. “Temos também a escolinha de futsal e vôlei, atendendo 60 pessoas cada, e a capoeira que no projeto prevê 40 alunos, mas já temos 60”, explica a gestora do Trilhar e completa, “o campo hoje está sempre lotado, de segunda à sexta, das 8h às 20h, temos alguma programação acontecendo por lá”. A quadra é usada ainda para o Mexa-se, uma ação municipal interligada ao programa Saúde da Família, que oferece aulas de alongamento, ginástica e dança para pessoas de todas as idades. Segundo Érica, o Mexa-se é um sucesso e ajuda a manter o movimento no local.

articulacao-campea2Quando saem e apagam as luzes, que foram incrementadas com o apoio da Prefeitura, sabem que os antigos ocupantes voltam. “Eles ainda estão por lá, mas não impendem mais as aulas. Tem uma salinha que a gente deixa só para eles quebrarem. Nós arrumamos, eles quebram, toda vez é assim, então resolvemos deixá-la vazia e virou a sala de quebrar”, falou Érica e explicou que são pessoas que precisam de uma ajuda além da que eles estão preparados para oferecer no projeto. “Todo mundo que tem idade para jogar e quer jogar, joga. Estamos abertos a todos e tudo o que oferecemos é gratuito” ressaltou e acrescentou que possuem muitos parceiros na região: “tem o Ronaldo que é voluntário e nosso preparador de goleiros e foi quem começou como treinador do time de mães. Tem a Solange, que usa o bar, que hoje é uma lanchonete, servindo refrigerante e sanduíches para os atletas do projeto. E tem os pais e as escolas, de quem estamos nos aproximando cada vez mais”. Os alunos precisam levar o boletim para o Instituto Trilhar no final de cada bimestre e, para participar de campeonatos, devem levar uma declaração da diretoria da escola atestando seu bom desempenho escolar.“São coisas simples como fazer uma visita à escola, conversar com a direção sobre o projeto e conferir se o horário de treino dos alunos não bate com os horários de aulas. Isso dá respaldo, nos aproxima das escolas e traz melhoria e qualidade para o projeto”, descreveu Érica.

“É fundamental que crianças e jovens, idades em que estão sonhando e conhecendo o mundo, possam se apaixonar por algo saudável como o esporte” explicou Érica, comprovando que hoje o projeto Base Campeã é uma referência para a infância e juventude da região. O Instituto Trilhar leva os atletas para fazerem testes em clubes profissionais e participa de competições promovidas por esses clubes para a seleção de jogadores. Também produz vídeos dos treinos e encaminha para os grandes times.

“Estamos tentando nos aproximar de outras associações esportivas, da Polícia Militar, dos bombeiros, da assistência social do município, do programa Saúde na Família e da superintendência de ensino”, listou Érica, explicando que visitam cada órgão com um material de apresentação do projeto, convidando os representantes para acessar o site do Trilhar e para que visitem o campo num dia de treino. “A gente marca reunião com todo mundo, sempre buscando informar e aproximar”, falou, confessando que já entenderam que as alianças com o poder público no Brasil são burocráticas. Ela ensinou que toda comunicação com o Estado deve acontecer por meio de ofícios e é preciso muita paciência e insistência, entender que é um setor que lida com uma demanda grande e é sempre importante buscar aproximar. “O esporte tem isso de trabalhar em equipe, de um ajudar o outro para vencer, de entender a importância de todo mundo atuar junto”, disse Érica, mostrando que não deixam os valores do esporte apenas dentro de campo.

articulacao-campea3Alex Fabiane Corrêa, secretário municipal de esporte e lazer de Sete Lagoas, afirmou que todos os espaços esportivos públicos da cidade têm que ser abertos para as manifestações culturais, de lazer e esportivas. “Com a chegada do Instituto Trilhar ao campo do Santa Rosa, a comunidade passou a utilizar melhor o espaço. Atualmente, buscando uma interação com o Trilhar de forma a acompanhar e auxiliar na ampliação do projeto Base Campeã”, acrescentou, informando que a Secretaria de Esportes está aberta para parcerias também com outras instituições que trabalham para o bem comum. “Estamos cadastrando as organizações sociais para juntos avaliarmos os melhores caminhos a seguir, terceiro setor e poder público”, mencionou.

Melhorias

Como o uso do campo Santa Rosa é intenso, não tem grama que sobreviva. Agora, o objetivo do Instituto Trilhar é cobrir o campo com grama sintética. O orçamento da obra, segundo Érica, ficou em torno de 800 mil reais e o Grupo Brennand, do qual faz parte a Cimento Nacional, já demonstrou interesse em contribuir. A gestora do projeto Base Campeã informou que a lei estadual não permite reforma e para viabilizarem a grama sintética, precisam aprovar o projeto na Lei Federal de Incentivo ao Esporte. No entanto, a legislação federal exige que para reforma, a organização social proponente tenha um termo de cessão de uso do espaço por 20 anos. “Nós temos interesse em assumir esse compromisso e fomos até a Prefeitura que pediu que a gente fizesse uma consulta com a população”, narrou Érica e citou que outras condições colocadas já são cumpridas pelo Instituto, como não cobrar, sublocar ou restringir acesso.

Assim, começaram um abaixo-assinado que já conta com duas mil assinaturas. O poder público avisou que é preciso esperar terminar o período eleitoral para assinarem o termo de cessão do espaço. Estão aproveitando esse tempo para conversar com a população, mostrando seus planos de continuidade e investimento no local. “Muitas dúvidas já apareceram, a principal delas é se vamos fazer um clube. Explicamos que não e também que a prefeitura tem todo o poder de retirar a gente de lá se o projeto não cumprir com os termos combinados”, contou Érica e garantiu que no início de 2017 voltam à Prefeitura de Sete Lagoas com o abaixo-assinado para solicitar o termo de cessão e seguir com o plano de cobrir o campo com grama sintética. “Acho que hoje nós temos condições de captar e fazer essa reforma”, acredita Érica baseando-se no trabalho que vem sendo feito,no apoio da comunidade e da empresa e no reconhecimento da própria Prefeitura.

Ela deixa claro que tanto o projeto Base Campeã quanto o Instituto Trilhar dependem das leis de incentivo para desenvolverem seus trabalhos e para crescerem. “Isenção fiscal é fundamental no nosso país, onde o Estado está sobrecarregado. É uma forma de valorizar a sociedade civil organizada que consegue chegar onde o poder público está ausente e colocar os projetos para frente”, argumentou a atleta e concluiu: “a gente consegue uma coisa super difícil que é unir empresa privada, ente público e comunidade. Se estamos conseguindo fazer isso, temos capacidade de fazer a reforma do campo e cuidar do uso desse espaço depois”.


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