Alianças para a liberdade

Na prática, os procedimentos de soltura exigem enorme comprometimento com as questões ambientais e critérios técnicos específicos para a aclimação dos animais à natureza. João Paulo Mourão Vasconcelos, veterinário e responsável técnico pelo Projeto ASAS Fazenda dos Carvalhos, que fica em Casa Branca/MG, explicou que as Áreas de Soltura de Animais Silvestres (ASAS) em parceria com propriedades rurais se tornaram a alternativa mais viável ao Ibama para o reencaminhamento à natureza desses animais.

O veterinário relatou que era um sonho antigo transformar a Fazenda dos Carvalhos em uma ASAS, o que foi concretizado em 2012, com o apoio da Associação Mineira de Defesa Ambiental (Amda). A organização social é responsável pela contratação do tratador e por alimentar as aves dentro e fora dos viveiros. As aves são 79% dos animais silvestres apreendidos em todo o Brasil entre 2002 e 2014.

Maria Dalce Ricas, superintendente executiva da Amda, contou que o Ibama, além de levar as aves para a área de soltura, mantém contato constante de acompanhamento do projeto. Já a Polícia Militar Ambiental tem o papel fundamental na apreensão de animais e apoio na fiscalização da região em torno. “Envolver os proprietários rurais é importante pela participação do segundo setor no assunto, pois o problema é de toda a sociedade”, comentou.

“Na verdade, o poder público tem falhas nas suas atribuições, pois faltam recursos para execução de todas as etapas do processo, tornando-se necessária a participação da iniciativa privada e das organizações da sociedade civil”, completou João Paulo, que fez em sua fazenda uma área de soltura diferenciada, onde há uma preocupação em acompanhar individualmente cada espécime a ser reintroduzido, inclusive do ponto de vista clínico, antes e depois da soltura. “Se constatarmos dificuldade de adaptação, retornamos esse indivíduo para o viveiro e damos o devido suporte”, esclareceu.

Maria Dalce pontuou que o projeto ASAS é de soltura, mas o Ibama precisa desesperadamente de parceiros que aceitem receber animais que não têm condições de serem soltos, por mutilações físicas ou emocionais. “O proprietário rural precisa construir instalações próprias e se comprometer a cuidar desses animais ad eternum”, destacou a superintendente executiva da Amda.

Mobilização

João Paulo descreveu que houve um envolvimento de todos no projeto, empregados, visitantes e moradores, tanto do entorno quanto da família proprietária da área. “A todo o momento, alguém dá notícia do reaparecimento de uma ave ou do nascimento de filhotes e todos se envolvem com a alimentação deles. Fizemos o plantio de diversas espécies de árvores que possam fornecer alimentos aos pássaros – pitangueiras, amoreiras, abacateiros, ameixeiras e muitas outras. Só goiabeiras são mais de mil”, contou satisfeito.

“É perfeitamente visível a mudança de consciência. Pessoas que sempre tiveram o costume de manter passarinhos presos em gaiolas passaram à prática da observação e começaram a reconhecer os problemas da manutenção de aves presas, não só quanto ao estímulo ao tráfico, como na preservação de espécies. As crianças, de um modo geral, tornam-se defensoras da liberdade das aves e muitas vezes passam a questionar atitudes dos pais ou vizinhos”, comentou João Paulo. No Projeto ASAS Fazenda dos Carvalhos, todas as solturas são acompanhadas de alunos das escolas dos povoados próximos, além da presença de moradores, lideranças e parceiros do Projeto que sempre são convidados. “Fazemos com frequência palestras em escolas, recentemente, realizamos o evento Casa Branca Sem Gaiolas, como uma forma de estimular criadores irregulares a devolverem as aves aos órgãos de fiscalização e soltá-las novamente na natureza”, acrescentou o veterinário e completou “a consciência do pessoal do entorno é fundamental para evitar novas capturas, o que poderia colocar em risco todo o objetivo do Projeto”. Maria Dalce acredita que “é preciso conhecer para amar e amar para proteger, assim, é imprescindível ensinar crianças e adultos que os animais têm direito à liberdade tanto quanto nós”.


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