A rua como espaço de vivência: conheça um pouco a história de um ex-morador de rua

Samuel Rodrigues coordena movimento que busca a dignidade das pessoas que vivem em situação de rua

Durante 13 anos, ele conheceu várias cidades do Brasil. Passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Espírito Santo e, finalmente, Minas Gerais. Mas um fato chama atenção nesse período: entre 1996 e 2009, Samuel Rodrigues estava em situação de rua.

Frio, fome, não ter um lugar para dormir, brigas. A discriminação e os direitos eram violados diariamente. Samuel explica que ninguém está na rua porque quer, mas a falta de oportunidades leva milhares de pessoas a transformarem as ruas em lar.

Morando em Belo Horizonte há dez anos, Samuel conta que a família se desfez nesse período e que hoje mantém contato com algumas pessoas que vivem em outros estados. Ele conta que estava no Espírito Santo e iria para Recife, porém veio para a capital mineira porque queria conhecer o Mineirão, a Lagoa da Pampulha e por aqui ficou.

Estima-se que o Brasil possua 100 mil pessoas morando nas ruas e que a maioria se concentre nos grandes centros urbanos. Em Belo Horizonte, nos últimos três anos, o número de pessoas em situação de rua cresceu 70%, segundo a Secretária de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania da prefeitura da capital. O último levantamento da Prefeitura da capital, divulgado em junho de 2017, aponta que 4.553 pessoas estão em situação de rua. A ocupação de espaços públicos, além da sujeira, do mau cheiro, da restrição do ir e vir são incômodos para a sociedade em geral.

E o que fazer para mudar este quadro? Existem ações que buscam melhorar essa situação. Em Belo Horizonte, por exemplo, os três Centros de População em Situação de Rua abrem nos finais de semana. A medida recente é a organização dos serviços ofertados pela administração municipal para esse público. No Brasil, menos da metade dessa parcela da população está incorporada ao Cadastro Único para Programas Socias (CadÚnico), que dá acesso à transferência de renda e habitação. As várias iniciativas existentes não contemplam todas as pessoas.

Samuel Rodrigues afirma que há muito preconceito em relação às pessoas em situação de rua e esse fator dificulta a “volta por cima” delas. Pesquisas revelam que apenas 15% pedem dinheiro, a maioria é adulta e está na fase da capacidade de trabalho. “Faltam oportunidades. Você acha que alguém vai dar trabalho ao saber que a pessoa foi moradora de rua? As empresas não vão abrir uma vaga se o comprovante de residência for do serviço de acolhimento”, enfatiza.

De acordo com ele, um tripé foi fundamental para reverter sua situação. “Primeiramente a vontade própria. Depois o trabalho da sociedade civil como a Pastoral de Rua, da Arquidiocese de Belo Horizonte, que está sempre nas ruas com uma palavra de conforto, incentivo e alimentação. Isso ajudava a enfrentar melhor aquela situação. Tem ainda as políticas públicas existentes na cidade, como o bolsa aluguel”, explica.

Atualmente, Samuel participa do programa bolsa aluguel, da prefeitura, que custeia parte dessa despesa. Hoje ele tem funções que o tornaram referência nessa luta constante. Ele é o coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua e agente social do Centro Nacional de Defesa de Diretos Humanos da População de Rua e dos Catadores de Materiais Recicláveis.

O coordenador do Movimento explica que chegou até a rua porque a família foi expulsa do campo, no Paraná, e teve que ir para a cidade. “As pessoas estão na rua porque alguma coisa não deu certo como planejado. Talvez um emprego ou a busca por um atendimento médico em outro local levam as pessoas a ficarem nas ruas”, ressalta.

Samuel considera este tempo na rua como sua formação para a vida e para o trabalho. Como ele não teve oportunidades para estudar, essa experiência fez com que aprendesse a conviver, a se relacionar mesmo em situações complexas. “Aprendi a pensar a política pública na rua e isso me auxilia a ajudar outras pessoas que se encontram na rua, sem oportunidades e sem direcionamento.” Ele diz ainda que quando se quer algo, é necessário buscar alternativas. “Eu tive apoio de várias pessoas, mas para sair das ruas acreditei em um futuro melhor”. E, apesar de tudo o que passou, o ex-morador de rua afirma que é possível sair desta situação e nunca desistir.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back to Top ↑